Olá, velho amigo velho! Há tempos não escrevo, porém hoje o dia me encheu de novos humores – todos à base de café-, e a vontade de contar as novidades foi maior do que eu.
Era 7:00. Foi ao deitar que percebi: você havia ido embora. Em nenhum canto do meu cérebro eu pude encontrá-lo.
No seu lugar, outras vozes passaram a ocupar meus dias. Nos felizes, os comentários vinham dotados de uma voz similar às dos meus colegas de colégio; nos mais melancólicos, parecia ouvir repreensões em tom de auto-ajuda. De repente, uma mistura de umas cinqüenta vozes interiores se mesclaram na de uma pessoa só.
E ele é meu amigo novo. Conversa comigo mesmo quando estou ouvindo música, comenta um assunto histórico ou outro, me chama de retardada quando eu fico olhando para o vidro do metrô e tentando imaginar os raios refletindo e refratando…
No meio da tarde é ele quem me aponta os erros idiotas de matemática, aquela linha do enunciado a qual não prestei atenção. É ele quem pergunta se a resposta bate com a pergunta e se o que eu rabisco no meu caderno possui alguma relevância. É insuportável. E necessário. Não sei se sobreviveria a tudo isso sem ele.
Meu amigo novo é uma gracinha. Ele me desafia todos os dias para partidas de quaisquer jogos, aponta minha prateleira só pra lembrar dos Nietzsches abandonados pela metade, da Noite na Taverna esquecida entre meus e-books e, talvez, das tantas ideias abandonadas no meio do caminho. Ademais, ri junto comigo da pseudointelectualidade e da arte de ser prolixo, especialmente quando ninguém mais entende a piada. Internas são o forte dele. Enfim, meu mais novo amigo é tão perfeito e genial que até me lembra você.
Tenha uma boa vida.